Umbanda, uma religião brasileira
- Casa de Caridade Gauisa

- 9 de ago. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 15 de dez. de 2022
A Umbanda é, em sua essência, uma religião verdadeiramente brasileira.
Essa brasilidade não reside apenas no fato de ter sido fundamentada no Estado do Rio de Janeiro, quando o Caboclo das Sete Encruzilhadas anunciou, numa mesa espírita, que uma nova religião estava “surgindo” para dar voz a espíritos de negros escravos e indígenas massacrados em território americano (especialmente no Brasil), com o objetivo de praticar a caridade.
Na verdade, a identidade brasileira da Umbanda é resultado da mistura de culturas e religiões de povos de várias etnias e localidades distintas, todas presentes no país, que influenciaram sua formação e seu desenvolvimento.
É assim que percebemos, de imediato, as influências do Espiritismo, doutrina filosófica cristã de origem europeia (mais precisamente de Paris, França), trazida por Allan Kardec, pseudônimo de Hyppolyte Léon Denizard Rivail, através da publicação de uma série de livros e revistas que faziam revelações acerca da existência do mundo espiritual. Dentre estas obras, destacamos o Livro dos Espíritos, o Livro dos Médiuns e o Evangelho Segundo o Espiritismo.
Foi no Espiritismo que Zélio Fernandino de Morais foi buscar auxílio para tentar compreender o que lhe acontecia. A mediunidade latente do jovem gonçalense, manifestada por ataques epilépticos e desmaios, só encontrou respostas através do estudo da doutrina espírita, que seria popularizada no Brasil muitos anos depois, por meio dos livros psicografados pelo médium Chico Xavier.
Isso não significa que a doutrina espírita seja a única capaz de esclarecer todas as questões inerentes à mediunidade. Pelo contrário, há muitos caminhos que levam as pessoas ao contato com o Divino. Tais caminhos se adequam de acordo com a experiência e a vivência de cada um, nesta e em outras reencarnações.
O fato é que, no início do século XX, a doutrina espírita não foi suficiente para trazer todos os esclarecimentos que Zélio necessitava. Espíritos de escravos, ex-escravos e indígenas queriam espaço para se manifestar nas chamadas “mesas brancas” espíritas, mas não tinham respaldo dos dirigentes das casas daquela época.
É justamente na necessidade de levantar a voz contra este preconceito que a Umbanda foi fundamentada. No dia seguinte àquela reunião realizada na Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro, em Niterói, foi designada a primeira sessão de caridade para atendimento ao público, ocorrida no município de São Gonçalo. Naquela ocasião, Zélio deu passagem para o espírito de um preto velho chamado Pai Antonio, um escravo que trazia muita sabedoria e conhecimento, com humildade e simplicidade.
É importante registrar que o marco a partir do “mito” de Zélio Fernandino de Morais não exclui todas as manifestações anteriores que já ocorriam por todo o território brasileiro, como, por exemplo, as de Luzia Pinto, Juca Rosa e Pai Gavião, dentre outros. Consideramos apenas que esta data formata a religião nos moldes em que praticamos nos dias de hoje, reverenciando todo o passado e ancestralidade que marca sua história, seus fundamentos e seus rituais.
A forte ligação da Umbanda com as raízes africanas decorre da presença dos pretos velhos e pretas velhas que, com toda sua sabedoria e humildade, abrilhantam as giras de caridade. Com a manifestação de espíritos de escravos e ex-escravos, diversos elementos oriundos de cultos de matrizes africanas vão sendo incorporados à Umbanda, em especial o culto aos Orixás.
Consideramos importante destacar, também, a presença marcante da Cabula na formação da Umbanda, um culto de origem bantu que, em terras africanas, já fazia a comunicação mediúnica com diversos espíritos ancestrais daquele povo.
Os Orixás, que já eram cultuados nos candomblés do Brasil, são, em sua grande maioria, divindades da religião iorubá. Na África, os Orixás estão originalmente associados a determinados lugares, podendo ser uma vila, um rio, uma cidade ou até mesmo um país inteiro. Estudiosos afirmam que há mais de 600 (seiscentas) divindades espalhadas pelo continente africano. A designação como Orixá é típica do povo nagô, onde se encontra majoritariamente a Nigéria. Mas temos, também, os Inquices, das tradições bantu (Congo), e os Voduns, de Benim, Togo, Gana e Burquina Faso. Contudo, na Umbanda, apenas algumas dessas divindades foram integradas às suas práticas.
Dentro da seara umbandista, cada Orixá representa um determinado padrão vibratório de energia, geralmente associado a um elemento ou a uma força da natureza. As entidades espirituais que se apresentam em cada uma das linhas de trabalho desses Orixás e suas falanges representam e atuam na forma de determinados arquétipos.
Aliás, os Orixás na Umbanda são sincretizados com santos católicos. Durante o período de escravidão, os negros não estavam autorizados a expressar sua fé, motivo pelo qual passaram a cultuar suas divindades na figura dos grandes vultos da Igreja Católica Apostólica Romana. É inegável que a violência do sincretismo forjou a nossa religião tal como praticamos hoje e, como parte de nossa história, entendemos que devemos tirar as melhores lições de todo esse cruel aprendizado, sem apagá-lo.
A aceitação do sincretismo na Umbanda não significa que as lutas raciais devam ser relegadas a um segundo plano, nem que todo o sofrimento do povo negro seja minimizado. Pelo contrário, acreditamos que a religião constitui um braço forte da sociedade, com viés revolucionário, que age dentro de seu propósito em busca de igualdade, de liberdade, na luta contra todos os tipos de preconceito e de intolerância.
Ademais, há estudos recentes que revelam que o sincretismo religioso constituía parte das características de alguns povos bantus, que eram nômades. Quando tais povos chegavam em novas localidades, reconheciam a espiritualidade presente no local e a integravam àquelas que cultuavam, sem a violência que marcou o período de pré-colonização e colonização do Brasil (até os dias de hoje).
Reconhecer o sincretismo como parte da Umbanda não diminui, portanto, a luta contra todos os tipos de preconceito e intolerância, muito menos contra o embranquecimento da religião.
Como a Umbanda é uma religião que não está codificada, nem organizada hierarquicamente (como a Igreja Católica Apostólica Romana, por exemplo), ao longo de mais de um século de existência, foram surgindo diversas vertentes que, apesar de diferentes entre si, guardam similaridade entre elas no conceito original da religião de trabalhar em prol da caridade pela manifestação de espíritos. Nessas diversas vertentes, os Orixás cultuados nas Umbandas variam entre 9 (nove) e 16 (dezesseis), via de regra.
A África se faz muito presente na Umbanda, também, pelo som dos atabaques. Nem toda vertente da Umbanda faz uso desse instrumento, mas não há dúvida de que a musicalidade e a alegria deste povo deixaram traços marcantes nos rituais umbandistas.
Se os pretos velhos destacam a presença africana na religião de Umbanda, como já ressaltado anteriormente, os caboclos trazem a força, a mística e a ancestralidade dos povos indígenas ou, melhor dizendo, dos povos originários do Brasil e do continente.
Alexandre Cumino destaca que, da origem indígena, a Umbanda, “(...) recebe o amor à natureza e a influência do xamanismo caboclo e da pajelança (...)”.
Outro ponto forte que registra a herança indígena na Umbanda é a utilização do fumo, que é uma erva sagrada para boa parte dos povos originários.
Aliás, os rituais umbandistas também receberam forte influência de cultos regionais do Brasil que trabalhavam com entidades espirituais de caboclos, como o Catimbó, a Macumba Carioca e a Linha dos Mestres da Jurema.
Além das heranças europeias, africanas e indígenas acima destacadas, a Umbanda recebe, no seu desenvolvimento enquanto religião, influências dos povos orientais do planeta.
Atualmente, é muito comum que os terreiros de Umbanda trabalhem com o que chamamos de Povo do Oriente, composta por entidades espirituais geralmente associadas a trabalhos de cura, originárias de países e regiões do Oriente Médio e da Ásia. Nesta linha de trabalho, destacam-se os ciganos, árabes, hindus e, até mesmo, espíritos que estão associados aos mestres ascensionados da Grande Fraternidade Universal.
A Umbanda é, portanto, o reflexo do Brasil como nação que a acolheu nesta dimensão. A mistura de raças do povo brasileiro é o retrato fiel da religião que combina características culturais da ancestralidade oriunda de todos os quatro cantos do planeta.
Enfim, a Umbanda representa a luta pela liberdade, pela igualdade, pela necessidade de se fazer presente, de dar voz aos menos privilegiados, para que possam expor suas histórias e testemunhos a partir de seus próprios pontos de vista, bem como seus erros, acertos, vitórias, derrotas, principalmente todo o aprendizado daí decorrente, com o objetivo único de ajudar aqueles que buscam socorro e alento na religião.
A Umbanda é universal.
Saravá Umbanda!
Foto: umasimplesconversa.wordpress.com
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